O Outono do meu descontentamento, sem folhas douradas nem vermelhos ocre.

A minha história deve ser semelhante a tantas outras. O conhecimento que se pode ter sobre a doença é sempre limitado pela falta de prática. Quando nos toca a nós toma uma outra dimensão e a busca de soluções torna-se dominante. Não foi propriamente o que me aconteceu mas a vontade de superar a adversidade é a maior das motivações.
Depois dumas férias bem agradáveis num Agosto ameno, o mês de Setembro estava particularmente quente e convidativo. A praia convidava a mergulhos e passeios bem como a recolha de conchas que a praia, gentilmente, oferecia de boa vontade. Cada uma delas parecia contar uma história diferente e senti que as devia levar comigo para as ouvir melhor.
 
Nesse ano tinha decidido que nada falharia e estava a seguir uma dieta que me fez regular o organismo. Esquecia-me de comer e era bem niquenta. O ginásio era de visita obrigatória e, sem dar por isso, cerca de 12 quilos tinham emigrado para paragens bem longínquas e sem deixar morada. Estava tudo a correr muito bem. O ano de 2014 ficará para sempre na minha memória como aquele que mais me desafiou.
 
Uma noite, antes de me deitar, reparei que o mamilo direito estava retraído. Primeiro pensei que tinha batido nalgum sítio e não me lembrava mas depois, olhando melhor, vi como estava rígido. Toquei-lhe. Senti que não era um caroço, que já tinha tido anteriormente, mas sim algo de muito sólido e que estava preso. Tive logo a certeza que era grave.
Naquele momento o tempo parou e uma sensação de frio atacou-me de modo selvagem. Já foste! Pensei logo e nem sou de usar esse tipo de linguagem. Por segundos, que pareceram uma eternidade, a minha mente divagou e foi até paragens que nem me recordava. Não sei se me estava a mentalizar que não era nada ou o seu contrário. Percebi que não podia fugir.
 
Deitei-me e fechei-me com aquele momento que me provocou sonhos tão estranhos como complexos. Via monstros a atacarem outros e eu sem força nas pernas para fugir duma guerra que não era minha. Estava completamente enganada. Estava a começar a minha guerra que iria ter contornos bem peculiares.
 
Achei por bem consultar um médico. Como sou das bafejadas com a ausência de médico de família, apesar de efectuar os pagamentos obrigatórios para a Segurança Social, aventurei-me com uma senhora que se disponibilizou para  me observar. Pelo seu olhar tive logo a confirmação das minhas suspeitas e começou a via sacra dos exames médicos até ser encaminhada para o hospital.
 
Soube sempre que era cancro mas nem me atrevia a pronunciar a palavra. Curiosamente não pensei em morte mas sim em vida, em tratar-me como se fosse uma doença que tivesse facilidade de ser curada. Muitas vezes ter um espírito ingénuo é uma companhia de louvar.
 
Quando cheguei ao hospital o médico permitiu-me que fizesse a consulta, nas suas palavras. Dizia que estava apta a acompanhar as consultas e as outras pacientes, o que fiz algumas vezes. Já o Verão tinha ido e o mês de Novembro estava a meio. No dia 14 houve a confirmação e no dia 20 estava no bloco operatório para me libertar do sacana, nome que dei ao que se agarrou à minha mama direita.
 
O Outono é a minha estação do ano preferida. As cores e as tonalidades de castanhos, laranjas, vermelhos e amarelos são tão belas que não se pode ficar indiferente a elas. Dão ideia que que os sonhos se podem tornar realidade e que o pôr do sol será eterno. Confiei sempre nos médicos e sabia que voltaria a abrir os olhos depois da cirurgia.
 
No lugar da mama estava uma enorme cicatriz cavada em profundidade. Tinha saído mas este era somente o início. Não houve tempo para os preliminares que este cancro era muito “caliente”. Esses vieram na sequência da amputação duma parte de mim, duma marca feminina e bem visível. Nem me importei pois queria que tudo acabasse rápido.
 
Deram-me uma mama fofinha, tipo peluche, para disfarçar a ausência da real. Olhei para ela num misto de incredulidade e vontade de rir. Vamos lá a usar esta coisinha amorosa que me faz festinhas doces. Umas vezes subia e quase que saltava pelo pescoço, outras descia e parava perto do umbigo. Uma irrequieta e marota que me desafiava a toda a hora.
 
Os tratamentos deixam as suas marcas profundas e mesmo tendo sido uma felizarda porque o cabelo só ficou fraco, o resto senti de modo intenso e forte, Recebi tanta radiação que devia iluminar ruas inteiras. Nem me lembrei disso na altura. O certo é que ainda hoje apito nas máquinas dos aeroportos e de algumas lojas. É sempre divertido.
 
Claro que o hospital passou a ser a minha segunda casa e se antes não sabia onde ficava serviço algum agora sou altamente especializada. Até sei o nome dos funcionários e algumas das suas actividades fora dele. É sempre bom ver o lado luminoso de tudo em vez da escuridão. Com essa não se avista vem o caminho e muito menos o fim.
 
Mais tarde veio a reconstrução mamária. Ui! Que aventura digna de super heróis e de cowboys que disparam em todas as direcções. Não podia colocar expansor porque não tinha material, não quis nenhuma prótese com receio de rejeição e muito menos corte do dorsal. Restava o músculo abdominal, o que implicava cortar a barriga e os arredores. 
 
Como já não era novata nestas coisas de cirurgias, pois os ovários e útero já tinham dito que estavam em más condições e tiveram que sair, esta zona tinha uma enorme cicatriz. Assim como assim seria melhor que fosse no mesmo local. Depois de se apurar que os tecidos não estavam danificados ficou assim decidido. Marcaram cirurgia para o início do ano.
 
Só que não aconteceu assim. Passaram meses até que se concretizou. Fiquei uma semana no hospital e confesso que as dores foram imensas e grandes. Ao fim de uns dias consegui levantar-me e andar sozinha. Menos mal. Só que a mama não estava contente. Estava a rejeitar o meu próprio corpo. Durante meses todos os dias caminhava para o hospital ou centro de saúde. A mama não fechava.
 
Voltei ao bloco operatório e desta vez o assunto ficou resolvido. De Março a Junho foi um suplício de tentativas que redundaram em fracassos. Tudo passou. O problema é o sol. Até hoje tem sido o meu maior inimigo, logo que que gosto tanto dele! Paciência. Ainda faltavam os retoques finais: o mamilo e a auréola. Seriam para segundas núpcias.
 
Este ano, depois de uma espera inútil, finalmente consegui que o restante se concretizasse. Mais outra anestesia geral e começo a perceber que o meu corpo é bem mais resistente do que pensava. Aguenta tudo com estoicismo e determinação, assim como eu. Um Ricardo Reis de pior qualidade.
 
Nunca me passou pela cabeça mexer no meu corpo por motivos meramente estéticos mas reconheço que estas, que são de uma outra classe, elevam a auto-estima e animam quem se sente desmoralizada. Tinha desistido de ver um mamilo naquela mama redonda e simpática. Afinal é verdade. O corpo vai voltando ao seu normal.
 
Normal? Mas que disparate! Agora sou bem melhor. Ninguém sai ileso duma contenda deste tipo e sinto-me uma vencedora, uma amazona que conquistou os seus troféus, mesmo que não possa fazer tatuagens para os recordar. Tenho as minhas cicatrizes que são medalhas e não me importo de as exibir. Olha para mim e volto a reconhecer-me. Mais marcada mas viva e isso é que importa.
 
Nunca me escondi mas não fiz apanágio do que me aconteceu. Há quem entenda e quem pense que não aconteceu. Tenho de tudo para contrabalançar com a verdade. Houve quem me dissesse que não podia ser verdade porque ninguém reage assim a um diagnóstico destes. É uma maldade grande dizer isso quando se luta para que os efeitos negativos sejam menores. Não entendem. Ainda bem. Não sabem que magoam. 
 
Pelo caminho vou conhecendo pessoas fantásticas com pontos em comum e que amenizam o caminhar sobre brasas. Ficamos amigas, partilhamos pensamentos e ajudamos no que nos é possível. Passamos os nossos conhecimentos e damos o ombro, sempre que necessário.
 
Não derramei uma única lágrima. Não que tenha ficado fria mas precisava delas para temperar as dores das meninas que me pedem ajuda. São muitas e este bicho, que é democrático, ataca a torto e a direito como e não houvesse amanhã. Tenho que ser firme para não vergar com o vento que ainda possa soprar. Os ombros estão encolhidos e creio que nunca irão descer mas olho em frente e sei que o melhor é sempre depois. 
 
Não adio a vida e ressuscito a escrita que estava bem enterrada desde a adolescência. Solto os fantasmas e liberto as energias negativas que deixam de incomodar. Limpo as teias de aranha e colaboro com várias entidades. Volto a fazer teatro e sinto que sou capaz de ainda dar muito de mim. Ser feliz pode dar trabalho mas é assim que me quero sentir todos os dias.
 
A escrita vai ser a minha melhor terapia e amiga e não a vou abandonar jamais. Descubro que tenho imenso para dar e partilho com quem quiser receber. Vou conhecendo outras pessoas que o mundo virtual me mostra. Passo a colaborar regularmente com um jornal on line: Repórter Sombra. Dá-me alento para o meu recomeço de vida.
 
Os quilos que tinha deitado fora afinal voltaram e trouxeram alguns amigos com elas. São os restos dos tratamentos que tenho que continuar a fazer. Paciência. É um pequeno preço que tenho que pagar mas vale a pena para continuar a usufruir das maravilhas que me são oferecidas.
A quem me tem acompanhado agradeço do fundo do meu coração e a quem caminha comigo só quero que sejam aquilo que pretenderem mas não soltem as mãos que se dão de boa vontade. Sou grata à vida por me dizer que sou capaz e que os meus limites são infinitos.

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O Blog Dia de Mudança relata o caminho de uma jovem de 25 anos desde o momento em que descobre que tem um Linfoma de Burkitt até à atualidade, onde demonstra como o corpo e a mente recuperam após meses de tratamentos.