Luísa e o Lobo uma mensagem de esperança. Um testemunho que deixa na boca o sabor da vontade de viver.

A vida da Luísa antes do Cancro

– Eu vivi 44 anos sem Cancro, o que considero uma sorte, no IPO vejo crianças com Cancro e fico em silêncio, a pensar na justiça do destino. Quando não temos Cancro, não pensamos verdadeiramente o que será ter Cancro, apesar de eu ter acompanhado a minha Mãe, também doente oncológica, achava que compreendia o que é ter Cancro, não é possível, só se sabe o que é ter Cancro quando ele entra na nossa pele e invade o nosso pensamento. Eu tinha uma vida normal, trabalho, amigos, namorado, vários interesses como ler, escrever, visitar museus, equitação, ouvir música clássica, a paixão por todo o tipo de animais levada ao limite. Deste muito cedo percebi que tinha de ter cuidado com a minha saúde e fazer exames regularmente como prevenção, penso que a morte de uma Tia com Cancro da Mama, quando eu tinha 16 anos, foi algo que me marcou, nessa altura ninguém dizia a palavra Cancro, era a “coisa má”, a minha primeira ecografia ao peito foi feita quando eu tinha 16 anos, por insistência minha, o que revela um traço do meu carácter, a teimosia. Não posso dizer que tive uma vida triste antes do Cancro, pelo contrário, houve anos dourados que eu recordo com muita saudade, ri muito, sempre ri imenso ao longo da minha vida, tenho um sentido de humor muito apurado, resultado de muito mimo na infância, uma adolescência normal e rebelde e uma entrada na vida adulta cheia de desafios inerentes à chegada da maturidade. A minha intuição deste muito cedo dizia-me para me manter informada, para questionar tudo e pensar por mim própria. Valeu a pena, pois ainda hoje mantenho os hábitos antigos.

Luísa Virtudes

Quando e como foi o diagnóstico

– O Cancro da Tiroide, normalmente apresenta-se sob a forma de um nódulo na Tiroide. Os seus sintomas mais comuns são a presença de um gânglio linfático cervical aumentado, rouquidão por compressão do nervo da voz, ou dificuldade na deglutição ou respiração devido à obstrução do esófago ou laringe.

Eu não tinha sintomas nenhuns. O diagnóstico aconteceu a 18 de Agosto de 2015. Depois de umas análises de rotina onde os valores da tiroide não estavam bem, fui aconselhada a fazer uma ecografia, a que se segui uma biópsia e a confirmação do Carcinoma Papilar da Tiroide variante Folicular.

Já pensou o que é sentir a palavra Cancro? Sim, porque as palavras atingem uma profundidade quando são tão simples, como a simplicidade de um exame que denuncia um Cancro. Senti-me Perdida. Foi como encontrar um lobo no meio da floresta e sentir um medo que me devora a alma.

O medo sente o cheiro de quem tem medo e entranha-se na alma. Entra sem pedir licença e faz-nos acreditar que somos imunes e que nem sequer pensamos nele. Que mentira tão grande. Percebi isso quando ouvi a palavra Cancro como um destino.

Cirurgias e Tratamentos no IPO

– O tratamento primário para os cancros da Tiroide é a cirurgia. Para as formas agressivas do cancro folicular e papilar a abordagem inicial é a remoção de toda a glândula da Tiroide – Tiroidectomia Total. Foi o que fiz. Devido ao surgimento de metástases locais tive que fazer uma segunda cirurgia – Esvaziamento Cervical do Pescoço do lado direito. Seguiram-se dois tratamentos com iodo radioativo, que é usado para o tratamento do cancro diferenciado da Tiroide agressivo que apresenta invasão dos tecidos que rodeiam a Tiroide.

Lidei sempre com esperança. Apesar do medo inerente à situação. As cirurgias, apesar das dores iniciais foram bem suportadas. Os tratamentos de iodoterapia, nomeadamente as duas semanas que os antecedem são difíceis, mas suportáveis. A privação de iodo com uma alimentação muito restrita é penosa e requer imensa imaginação. A determinada altura o cansaço físico e psicológico toma conta das nossas forças. O isolamento na medicina nuclear é um enorme desafio.

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O maior apoio para ajudar a ultrapassar a doença

– O meu apoio incondicional foi e é o meu namorado, é esse o meu maior apoio. Foi a pessoa que pegou em mim nas horas amargas e foram muitas. É muito difícil ser o cuidador, penso que só o amor torna isso possível. De seguida foi a escrita, antes do Cancro já escrevia, portanto foi algo natural e orgânico, escrever permitiu a minha liberdade mental, a minha fuga da tristeza.

A necessidade de me expressar através de um livro, o Luísa e o Lobo

– Escrever o Luísa e o Lobo foi a única forma possível de conseguir, ao longo destes dois anos e meio, nunca desviar o olhar do meu próprio medo, absoluto e inquietante, como se fosse uma sombra a tapar a luz do Sol.

Acordava muito cedo e escrevia como se a minha vida dependesse de cada palavra, num discurso direto com todas as emoções, comuns a todas as pessoas que vivem um Cancro, com uma teimosia que sempre fez parte do meu carácter, ao mesmo tempo cheia de medo e cheia de vontade de aprender a viver com esse medo, o mesmo que ainda agora está aqui sentado ao meu lado. Agora um medo feliz porque temos uma relação muito pessoal, e nem o facto de termos sido apresentados por um Cancro, tornou impossível a felicidade.

Tornou-se claro para mim à medida que o tempo passava, que o medo seria a chama de algo que faria nascer no meu interior migalhas de coragem caídas do céu, eu apenas fui um pássaro que as apanhou do chão, numa aprendizagem que descarnou a minha alma e fez nascer vida em pensamentos que no início foram um árido deserto.

Escrever o Luísa e o Lobo permitiu-me resgatar a minha alegria e conquistar a serenidade, um desafio enorme que só pode ser entendido na plenitude por quem vive um Cancro por dentro, no corpo e na alma, quando existem dias em que a simples tarefa de sair da cama é difícil, o Cancro quer tirar-nos tudo, a primeira coisa que quer para si é a nossa alegria de viver. Senão tivesse escrito o Luísa e o Lobo ainda hoje seria refém da tristeza.

Luísa e o Lobo foi a casa onde o meu medo e a minha alegria aprenderam a olharem um para o outro.

A mensagem deste livro

– Aprendi nesta viagem que é preciso muita coragem para deixar falar o medo sem perder a dignidade. Luísa e o Lobo é um livro sobre a vida na sua essência. Um testemunho real do que acontece quando a vida que conhecemos deixa de existir e entramos na dimensão do medo real que é viver um Cancro. É uma recusa da tristeza, no ponto mais obscuro da alma humana, o encontro improvável entre a dor, alegria, o inesperado e a esperança.

Com algum sentido de humor à mistura, eu espero inspirar outras pessoas na mesma situação, quero que cause desconforto, que incomode o suficiente para desafiar a curiosidade e a coragem necessária para entrar no mundo de uma pessoa com Cancro. No fundo que deixe vontade de voltar a ler.

Hoje sou uma pessoa mais calma e que aprendeu a dar mais valor à vida e às pessoas que realmente são merecedores da minha atenção. Depois de ter experimentado a sensação que a morte pode surgir quando menos esperamos, sem dúvida que hoje dou mais valor e usufruo muito mais da vida.

No fundo, eu sempre fui uma pessoa intensa. O Cancro apenas me fez perceber as situações em que não vale a pena sofrer, seja por algo ou por alguém, e as situações em que vale a pena eu aplicar essa intensidade. Ou seja o Cancro passou a ser a minha bússola em direção à felicidade.

Luísa Virtudes

LUÍSA E O LOBO capa VFinal

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O Blog Dia de Mudança relata o caminho de uma jovem de 25 anos desde o momento em que descobre que tem um Linfoma de Burkitt até à atualidade, onde demonstra como o corpo e a mente recuperam após meses de tratamentos.