Cancro aos 26 anos e a vida que te obriga a parar

Chamo-me Ana Rita.

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O Verão de 2011 não foi igual a tantos outros anteriores, quando a minha preocupação era somente aproveitar ao máximo os dias de sol e de praia. Agosto. Agosto de 2011. 9 de Agosto, para ser mais precisa. Aos 26 anos um bicho silencioso, chamado cancro morava em mim, tão silencioso que foi o ruído do seu silêncio que gritou para que eu o pudesse descobrir. Felizmente que só morava, como um aluguer temporário, mas ainda não apoderado nem alojado. Esse bicho, que toda a gente vê como um monstro não era maior que um berlinde. Descobri-o num dia à noite a passar creme, pensei que quando acordasse na manhã seguinte já não estaria por lá, teria ido embora, como uma passagem fugaz de uma noite… Mentira…. Nessa mesma manhã lá estava ele, pequeno mas preciso, o nódulo. Ficar na dúvida do que poderia ser ou não ser, não era solução, mas era sábado e não me restava senão esperar por segunda-feira.

Chegou a segunda-feira, e não sei se, por secretamente achar que não era só de passagem que o nódulo lá estava, protelei e não peguei no telefone para marcar uma consulta.

Passou terça, quarta… não restava alternativa, peguei no telefone e marquei uma consulta de urgência com um médico em quem confio plenamente. “Tem consulta marcada, para quinta-feira, às 14.30” Tinha pedido com carácter de urgência. Lá fui eu, sozinha, achei que não valia a pena pôr as pessoas em sobressalto sem certezas absolutas. Fazia um calor imenso nesse dia, lembro-me bem…. Do calor que fazia e do médico me perguntar “O que a traz por cá?” Lá lhe disse… Mamografia e ecografia mamária de urgência. Não me fez antever nada de bom. O resultado não foi conclusivo, a ecografia tinha um aspecto suspeito. Fiz uma punção, era preciso um resultado mais certeiro. Uma semana depois chegou o resultado. Suspeita de carcinoma.

Pausa. O que se faz agora? Suspeita? Mas então… É ou não é? Nova punção. Resultado volta a ser pouco conclusivo. Punção dirigida com ecografia, feita já no IPO de Coimbra. Uma semana para saber o resultado. Ligam-me do IPO, sabe-se que é cancro. Só não se sabe se é de mama ou de pele. Mais um ou dois dias para conhecer o diagnóstico.

O diagnóstico final chegou. Certeiro, finalmente! Carcinoma da mama. O mundo gira, como sempre, o meu pára. Parou de repente. Assimilação de informação. Pergunta óbvia… E agora?

Seguiu-se a consulta de decisão de terapêutica. Operação. Mastectomia total. Protocolo de 1 ciclo de quimioterapia com 6 sessões. A bomba foi lançada. Se até então tinha reagido de forma calma e até um pouco passiva, aqui o mundo não parou… desabou!! Quando absorvo o resultado da consulta, o reflexo disso foi um choro compulsivo, a percepção de uma mutilação imposta como cura óbvia e objectiva do cancro, aos 26 anos, não é fácil.
Pensei por etapas. Teria que me concentrar no tratamento e uma consequência óbvia seria a queda de cabelo. Tinha na altura um cabelo muito comprido, decidi cortá-lo por cima dos ombros para que a queda inevitável, fruto dos tratamentos, fosse menos dura. Pensava eu…

13 de Setembro de 2011. Primeira sessão de quimioterapia. Era uma terça-feira. Foi o dia em que me senti efectivamente doente. A percepção de que a batalha estava só a começar. Fiz sessões de três em três semanas com uma duração de três horas. Intermináveis. Os sintomas acentuavam à medida que os ciclos avançavam. Fadiga e enjoos. Nos últimos ciclos vómitos. O cabelo começou a cair na semana antes do 2º ciclo.

Ridiculamente tinha uma certa esperança de que não fosse acontecer. Foi das etapas mais duras durante o processo da doença. Não havia alternativa. Lutar pela minha vida era prioritário. Senti a minha feminilidade afectada. Como nunca. Ainda hoje me lembro do barulho da máquina e de mim a fugir dos espelhos adiando enfrentar a nova imagem.

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Nunca usei peruca, achava violentíssimo psicologicamente colocar uma coisa falsa que eu queria ter como minha e retirá-la. Resolvi assumir, moderadamente, usando sempre chapéus e lenços. Ter apanhado o ultimo trimestre do ano ajudou bastante nesse sentido. Assumir uma nova imagem e brincar com acessórios de moda, um subterfúgio. Nunca desleixei a minha imagem, por menos vontade que tivesse. Tudo se mantinha igual, excepto a falta de cabelo.

27 de Dezembro de 2011. Última sessão de quimioterapia. O ano iria acabar e com ele a fé e esperança renovadas.

25 de Janeiro de 2012. Intervenção cirúrgica, no privado, por opção. O tumor respondeu bem aos tratamentos e diminuiu substancialmente. Mastectomia total dupla, também por opção. Foi uma escolha da qual não me arrependo. Minimizar uma recidiva era peremptório para mim.

Em Março assumo novo visual, cabelo curto. Poder andar outra vez com cabeça destapada foi uma lufada de ar fresco. 2012 trouxe com ele renovação de votos essenciais na minha vida.

O difícil do cancro, no travar dessa batalha, não foi o confronto com a morte iminente. Nunca me passou pela cabeça que isso pudesse ou fosse acontecer. O difícil mesmo foi lidar com mudanças de vida, estilo de vida, mudanças estéticas e corporais de alguém que aparentemente está na flor da idade. Sei, acredito, que as coisas acontecem por uma razão. Eu sempre me preocupei excessivamente em cuidar da minha imagem, e a doença, nesse sentido, foi uma prova de fogo. Não tenho hoje qualquer pudor em falar do assunto, não me incomoda. Adoro o resultado final da mestectomia dupla total. Não tenho nenhum complexo. Na altura foi duro, as mutilações corporais (a cirurgia, o cateter, a menopausa induzida por dois anos em consequência), algumas irreversíveis, o que me obrigou a reequacionar prioridades.

A minha vida profissional parou até 2014, tempo que demorei a voltar calmamente às minhas rotinas. Em Janeiro de 2014 resolvi tirar um Curso de Consultoria de Moda e Imagem, com uma vertente de psicologia relacionada com a nossa imagem. Sou designer freelancer, trabalhei na área da moda desde cedo e o meu objectivo principal era poder ajudar doentes oncológicas a melhorar a sua imagem e a sua autoestima numa altura de grande fragilidade emocional quando a imagem feminina é tão afectada. Um testemunho vivido na primeira pessoa tem sempre outro impacto. Em Março de 2014 nasceu a TURN – Consultoria e Imagem, onde alio a Moda, Imagem e Consultoria Pessoal, onde realizo e concretizo a vontade de ajudar doentes oncológicas a cuidarem da sua imagem numa fase de grande fragilidade e a potenciarem o que têm de melhor.

Hoje, com 31 anos voltei a restabelecer a minha vida. Passados 5 anos já sou considerada sobrevivente. As consultas semestrais passarão a anuais, a medicação vai acabar e está tudo controlado.

Trinta, a idade e a década do sonho… em construir família, realizar-me e poder ajudar mulheres que passaram ou passam pelo mesmo e que, de algum modo, se esquecem de sonhar.

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Mais sobre mim:

Instagram– arp2504

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O Blog Dia de Mudança relata o caminho de uma jovem de 25 anos desde o momento em que descobre que tem um Linfoma de Burkitt até à atualidade, onde demonstra como o corpo e a mente recuperam após meses de tratamentos.