Ai que calor.

A singeleza dos dedos, a textura sublime, a armação delicada, a tinta emblemática e a mestria do abrir desvendam em cada vareta o mais ínfimo abanico. Todavia, a decifração será sempre fidedigna?

O esvaziar da água, o diminuir da roupa, o girar das ventoinhas e o colorido dos bonés revelavam que “uma imagem vale mais que 1000 palavras” adivinhando o abafo que se sentiria em julho.

Enquanto, os media desvendavam que vivíamos o verão mais quente dos últimos anos eu condenava-me por ter escolhido trabalhar com e naquele tempo. Não era um simples part-time de verão. Era um trabalho penoso, rigoroso e exigente: aturar um rapazola insubordinado e petulante!

Ora protestava de tudo e por tudo, ora reclamava com tudo e com todos. No entanto, era a sua intolerância às temperaturas altas que me enlouquecia: os calores repentinos, os suores desmedidos, as transpirações avultadas… porém, eu prosseguia naquele ambiente enigmático manuseando o abanico como um simples, devoto e fiel súbdito.

A barreira entre nós desvaneceu-se com o apoio do calendário e dos olhares bisbilhoteiros indagando por um abano bem mais abrangente: aquele com a técnica para refrescar a alma, ventilar a esperança e esfriar a dor. Prossegui então, acelerando os abanicos e  movimentando-os com a força de várias varetas unidas.

Aos poucos desmistifiquei aquele rapazola através de uma linguagem própria e atenta aos pequenos gestos. O seu olhar comunicava pequenas alterações meteorológicas transmitindo que o sucesso de uma boa colheita depende da semente, da rega e do terreno certo; irradiando que a protecção estará sempre presente no tamanho da faixa, na forma tricotada e nas voltas necessárias; contemplando que a positividade nasce com as novas folhas, os diferentes aromas e o canto dos passarinhos e brilhando pela oportunidade de continuar a sentir o sol de verão.

Peguei-o cuidadosamente, abri-o fugazmente, tapei o olhar sorridente e por fim, dei 4 abanicos de felicidade pois o trabalho de verão estava concluído. No entanto, aquele rapazola inconformado retorquiu, roubou-mo, lançou-me um olhar horripilante e deu-me 3 abanicos.Não havia dúvidas, a decifração era fidedigna: daqui a 3 semanas voltamos a encontrar-nos!

Leque

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O Blog Dia de Mudança relata o caminho de uma jovem de 25 anos desde o momento em que descobre que tem um Linfoma de Burkitt até à atualidade, onde demonstra como o corpo e a mente recuperam após meses de tratamentos.

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