Basta, quero falar!

O silêncio interroga o vazio do tempo, impulsiona o imaginário, intensifica os gestos ou os olhares e revela-se perfeito quando as palavras falham. Mas, se um dia o quebrássemos o que faríamos a seguir?

Shiu, não é permitido barulho: expressão que me enervou durante anos e originou um pequeno ódio de estimação a tal local. Como é possível estarmos rodeados de palavras, pesquisarmos novos sinónimos, descobrirmos inúmeros significados e não proferirmos nada? Quantos cheiros novos, histórias diferentes ou rostos distintos para folhear?

Interpretamos a velhota de óculos, analisamos as cabeças enfiadas nos livros, consultamos distintas estantes e acabamos por escolher o silêncio como o melhor livro para desfolhar o nosso eu e, principalmente todos os eus que estão naquele sítio.

Nunca compreendi a magia de tal local, nunca gostei de estudar lá, nunca quis ser uma daquelas cabeças… nunca imaginei ter de voltar tantas vezes àquela biblioteca! 

Apresentei o meu cartão e reparei que as cadeiras permaneciam frias, apesar de maiores; a bibliotecária rejuvenescera; as estantes estavam mais coloridas e mais pequenas; as cabeças trocaram os livros por almofadas e o silêncio era incomodado pelo ressonar ou pelas chamadas.

Ao contrário do que acontecera nas outras bibliotecas, nesta teria que voltar mais 6 vezes permanecendo pelo menos 30 minutos. E, então o que faria ao isolamento, à ausência de palavras, à imaginação fértil ou aos livros intocáveis?

Tinha noção que as cabeças, possivelmente, não estariam dispostas a grandes conversas fruto do cansaço ou do medo de revelar mais do que acham que devem. Expressar os sentimentos ou contar pormenores implica recitar esperança, medo, angústia ou vergonha. Por isso, desfolha-se, outra vez, o silêncio; trocam-se olhares e articulam-se pequenos sorrisos. Desta vez, não se dá asos à imaginação, mas sim folheia-se um sono profundo até ao toque da última página.

A Biblioteca intitula-se Hospital de Dia, ali descodificamos um bocadinho do nosso livro; requisitamos livros de diferentes géneros e com um prazo de 1 dia de aluguer; reconhecemos a importância da bibliotecária e, apesar do silêncio, aprendemos que todas as cabeças estão ali com o mesmo propósito: ouvir o Shiu e voltar para casa!

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O Blog Dia de Mudança relata o caminho de uma jovem de 25 anos desde o momento em que descobre que tem um Linfoma de Burkitt até à atualidade, onde demonstra como o corpo e a mente recuperam após meses de tratamentos.

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