Uma questão de números.

Se um dia a vida nos obrigasse a calcular as razões pelas quais a queremos tanto seríamos capazes? Ou, simplesmente apresentar-lhe-íamos os números pelos quais vivemos? Contas e mais contas…

O fecho das calças encravava, a camisa desabotoava, o soutien marcava e a barriga espreitava…sim, estou a engordar! Contudo, a balança sobe porque eu quero, porque tenho que estar e manter-me forte para aguentar os tratamentos. Vá, e porque tenho tanta, mas tanta fome misturada com desejos inexplicáveis.

Gomas, hambúrgueres, batatas fritas, gelados, bifes,…enfim, todo um vasto cardápio que me faz salivar e perceber o significado de “1 minuto na boca 1 vida nas ancas”. Se acho que o prazer que a comida me dá é normal ou Se acho que me estou a descuidar completamente? Não, definitivamente não acho. Acho sim, que é uma fase.

Uma fase em que retirei alguns ingredientes do menu, introduzi outros e saboreio outros quando os valores consentem. Que saudades de comer sushi… adiante. São apenas uns meses, um altura em que o corpo precisa de outro tipo de atenção e ambos rimos quando o mundo afirma que os doentes oncológicos perdem imensos quilos. Talvez, esteja a contabilizá-los todos.

Hoje, julgo que a culpa é da minha madrinha de faculdade que me abençoou com o célebre nome de praxe CACHALOTE. Sim, foram necessários 8 anos para fazer jus a tal nome. Porém, sou um cachalote, uma gordinha ou  uma fofa -como me chama a minha médica- sem preconceitos, sem cintas e sem medos.

No entanto, ninguém me deixa usufruir verdadeiramente do meu estatuto: por um lado quando como um doce ou uma francesinha ouço logo “qualquer dia temos 3 dígitos na balança”, por outro lado quando não me apetece comer ouço “olha os tratamentos, tens que te alimentar”. Afinal, como ou não como? Importam-se de decidir?

Subo e desço a balança, olho todos os ângulos do espelho, faço piadas sobre o meu estado de graça e concluo que 10 quilos, 2 bochechas ou 1 pneu são meros detalhes comparando com 1 batalha que tenho pela frente.

Vivemos em função de, arranjamos justificações para, fugimos de e acabamos por compreender que a única razão pela qual queremos continuar aqui é pelo 1: uma única vida que somando ou subtraindo é nossa!

atingir-o-numero-magico

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O Blog Dia de Mudança relata o caminho de uma jovem de 25 anos desde o momento em que descobre que tem um Linfoma de Burkitt até à atualidade, onde demonstra como o corpo e a mente recuperam após meses de tratamentos.

2 thoughts on “Uma questão de números.

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