Partilhamos o tesouro?

Somos presenteamos com uma panóplia de notícias, as quais automaticamente dividimos em boas ou más. No entanto, qual a fórmula que usamos para chegar a essa divisão? O raciocínio baseia-se na soma da personalidade com a ideia do bom e do mau a dividir por todas as vivências. Mas, será o resultado sempre exato ou haverá necessidade de arredondá-lo?

Aquele momento já era parte integrante da minha rotina: todos os dias ao final da tarde ele esperava por mim, uma tarefa árdua que mexia mesmo com o meu sistema nervoso  e para qual o meu querido namorado usava sempre a frase “amanhã trato disso”. Sentia-me uma assaltante inexperiente, uma dona de casa desesperada para abrir aquele maldito correio.

Mais um final de tarde, mais uma tentativa para abrir a caixa do correio, mais um figura deprimente e uns bons palavrões à mistura. E, para quê? Para encontrar meia dúzia de cartitas numa imensidão de folhetos publicitários.

O amarelo fluorescente com a etiqueta vermelha a dizer “urgente” despertou toda a minha atenção e acalmou toda a minha raiva. Afinal, não é todos os dias que a caixa de correio está tão colorida e claro, pensei que boa estratégia de marketing. Virei o envelope e o meu nome estava no lugar do destinatário, não hesitei mais e abri…

De repente, fiquei ainda mais surpreendida e boquiaberta: uma chave e um carta, o que é isto? A primeira ideia que me ocorreu foi aquele engraçadinho finalmente arranjou a chave do correio.

Decidi então, ler a carta e mais uma vez fiquei estupefacta: uma caligrafia pior que a minha e uma imagem de uma arca cheia de moedas de ouro de fundo revelavam uma pequena frase:- estou à tua espera na cidade dos estudantes. Descobre-me!

Pára tudo: ou estou louca ou estou rica.

Peguei no telemóvel liguei ao Rodrigo e entre o entusiasmo e a desconfiança do momento contei-lhe tudo. Num tom bem calmo, respondeu-me que teríamos que saber mais sobre ele para tomarmos uma decisão. E, assim foi.

Quando chegou a casa mostrei-lhe a carta e observámos que na parte de trás, um pouco imperceptível, estavam escritas as condições exigidas.

Perplexos, um pouco baralhados e bastante curiosos resolvemos que aceitaríamos. Porém, existia uma condição não escrita mas que estava implícita: partilhar a descoberta  com os diversos núcleos da nossa vida. Porém, essa eu não estava disposta a aceitar…

Eu sentia que era o meu momento, que precisava de espaço e de tempo para entender o que estava a acontecer e que não queria perguntas, opiniões ou testemunhos fosse de familiares ou amigos, e muito menos, de conhecidos ou desconhecidos. Ninguém sentiria ou perceberia o que se passava no meu coração, na minha mente ou na minha vida. Pois nem eu conseguia…

Por outro lado, eu sabia que o meu desaparecimento súbito ocasionaria preocupação, boatos ou histórias inventadas. O tesouro era meu, ainda não sabia nada sobre ele, como é que seria capaz de o verbalizar ou explicar? Seria impossível…

Com a ajuda do Rodrigo entendi que tal como não podia fugir à doença também, não poderia fugir das pessoas que nos rodeavam. Pronto, tinha que contar…

Pois, mas como é que se conta uma notícia destas? Pego no telemóvel e digo olá tenho algo para te contar, não sei se estás preparado (a) ou marco um café e digo preciso de falar contigo, mas nem sei como começar.

A verdade, é que quando somos presenteados com as supostas notícias boas ambicionamos espalhá-las aos 4 ventos; postamos uma fotografia ou uma frase nas redes sociais para demonstrar o quando somos sortudos ou até ligamos à prima afastada para que toda a família saiba que temos uma vida maravilhosa e quando somos alvo das ditas más notícias?

Aí calma as coisas já não são bem assim, já não é uma situação tão fácil. Todavia, existem diversas hipóteses para lidar com a situação: fecharmo-nos  em copas; evitarmos determinadas conversas ou assuntos; fingirmos que nada se passa ou então recorremos a uma rede social ou à vizinha para que se espalhe a nossa pouca sorte e o mundo comece a postar emojis tristes, fingidos e outros até felizes.

No meu caso, contei a um grupo muito restrito de pessoas, que me ajudaram a contar a outras, e assim sucessivamente. O Rodrigo fez o mesmo e, assim evitámos os posters com a nossa cara e a recompensa.

Mãos dadas, malas às costas, noites à procura de respostas, dias a caminhar por ruas desconhecidas e tesouro encontrado. Não havia ouro, apenas uma carta com letras bem gordas que revelava, novamente, uma pequena frase:- o tesouro está dentro de ti, descobre-o!

Quem sabe, se um dia percebemos que não andamos a usar corretamente a fórmula e que o raciocínio deve basear-se na capacidade de transformarmos o mau em bom. E, quiçá se o resultado não nos levará à descoberta do nosso próprio tesouro.

treasure-160004_1280

Anúncios

Publicado por

O Blog Dia de Mudança relata o caminho de uma jovem de 25 anos desde o momento em que descobre que tem um Linfoma de Burkitt até à atualidade, onde demonstra como o corpo e a mente recuperam após meses de tratamentos.

One thought on “Partilhamos o tesouro?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s