Uma grande tesourada!

Afirmamos que somos seres pensantes e racionais, porém, consentimos que ideias pré-concebidas; dogmas inalterados; julgamentos sobre quem ousa ser diferente ou sentimentos como o racismo ou a homofobia nos influenciem. E o que fazemos para que isso não aconteça? Não fazemos nada, porque jamais admitimos que somos seres preconceituosos, sob pena de sermos julgados em praça pública por outros iguais a nós.

Sabemos que a minha doença detém uma carga emocional gigantesca e exige imenso, mas imenso tempo e trabalho, mas não só. Para além disso, dá-nos o privilégio de desfrutar de sensações que jamais teríamos hipótese se não usufruíssemos do rótulo de doentes oncológicos.

A fronha branca tinha sofrido pequenas alterações durante a noite e quando acordei tinha riscas laranjas, mas curiosamente estavam todas desalinhadas. Olhei para a do Rodrigo e percebi que só a minha tinha sido alvo de tal mistério. Levantei-me e reparei que a camisa de dormir também as possuía, e de repente o chão começou a tê-las também…soube então, que era a hora!

Entendi que aquele momento deveria ser só meu pois não queria ver mais nenhumas lágrimas a conterem-se para além das minhas; não queria que ninguém adoptasse o meu penteado e não queria partilhar o sofrimento do som da máquina de rapar.

Abri a porta, reparei que não havia clientes, entrei com o pé direito, passei a mão por eles, e sem a conhecer disse-lhe convictamente:- bom dia, quero rapar o cabelo.

Olhou-me completamente atordoada e perguntou:- tem a certeza? A menina tem um cabelo tão bonito, vai ser uma pena.

Pronto, vamos começar todo um julgamento, toda uma explicação de uma atitude. Uma pessoa não pode ser diferente ou sair dos ditos padrões que aparece logo alguém para questionar tal ousadia ou para apontar tal ato de insanidade. Mas, naquele momento tão penoso para mim não queria que a cabeleireira enuncia-se inúmeras razões para não o fazer e resolvi contar-lhe o verdadeiro motivo de tal loucura.

Expliquei-lhe que tinha a tal doença, aquela que não se pode pronunciar o nome muito alto pois parece que vamos contaminar o mundo,  e ela deu-me um beijo na face e ligou a máquina.

Fechei os olhos, senti a primeira risca a cair e a primeira lágrima, também, senti mais uma e disse para mim própria:-Basta, isto não vai ser o apogeu do dramatismo. Conseguiste vir até aqui sozinha, vais abrir a merda dos olhos ver-te ao espelho e acreditar ainda mais em ti Gabi.

Assisti a uma grande parte das riscas a caírem e quando olhei para o chão percebi que uma parte de mim tinha ido embora, contudo, algo me fazia sentir que iria descobrir um novo eu e, desta vez com uma cor autêntica e sem brancos.

O resultado surpreendeu-me, afinal detinha uma careca bem gira e nem me ficava assim tão mal. A verdade, é que não foi fácil entrar naquele cabeleireiro mas o receio de sair era bem, mas bem maior: enfrentar o mundo e não ouvir o preconceito. Conseguiria enfrentá-los? Não sabia, sabia apenas que não podia ficar ali para sempre.

Por outro lado, sabia exatamente que não usaria lenços nem peruca porque ninguém teria o direito de me obrigar a usá-las. Pois a doença, tal como a careca eram minhas.

Confesso que vi muitos olhares de pena e ouvi alguns comentários infelizes, no entanto, ninguém conseguiu nem consegue derrubar o que exibir a careca significa para mim. Não a exibo para mostrar que sou super corajosa ou para suplicar compaixão, mas sim como uma parte de mim, um acessório que uso sempre ou um talismã que nunca deixo em casa. E, hoje trato-a com tanto carinho e cuidado como sempre tratei os meus cabelos. Hmm, e esses quando voltarem exibi-los-ei ainda mais, porque significarão que venci.

Criticar é uma questão de apetite, julgar é um dever e lamentar é imprescindível, mas será que enfrentar o espelho da vida e ver mais além, não seria algo que nos traria resultados bem melhores?!

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O Blog Dia de Mudança relata o caminho de uma jovem de 25 anos desde o momento em que descobre que tem um Linfoma de Burkitt até à atualidade, onde demonstra como o corpo e a mente recuperam após meses de tratamentos.

4 thoughts on “Uma grande tesourada!

  1. Emoções fortes!
    Não sejas tu uma comunicadora nata, espontânea.
    A emotividade que colocas no teu relato é tocante, já o conheço…
    Feliz por ti, por ter chegado o momento da partilha. Tu sabes..
    És princesa, eternamente…
    Cabelo? Virá..
    Tanta coisa boa virá de seguida, certo?
    Beijo, abracinho.
    Aquele até tu…

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  2. És muito especial! Essa tua força e garra, alimenta a esperança e a vontade de vencer de qualquer um. És uma mulher incrível, linda por dentro e por fora. Mantém sempre a força que tão bem te caracteriza! Deste lado, ainda que à distância, estarei contigo. Sempre! Um beijinho do tamanho do mundo*

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  3. És uma guerreira. A minha tia também ficou carequinha e a única razão para usar lenço foi o meu avô… todos nós adorámos aquela careca… agora, felizmente já tem muito cabelo a crescer. Continua com a tua força. Estaremos aqui para te ver vencer. Beijinho.

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