Não quero tirar a carta de condução!

Segundo o dicionário a promessa consiste numa “declaração em que se anuncia a outrem ou a si mesmo uma ação futura ou uma intenção de dar, cumprir, fazer ou dizer algo…”.  Esta é formada, essencialmente, por duas expressões “prometo que” e “eu cumpro se”. Apesar de, não admitirmos sabemos que das inúmeras promessas que fazemos somente cumpriremos uma pequeníssima percentagem. Por sua vez, existem promessas que jamais esqueceremos e no momento certo estaremos lá para as cumprir ou as cobrar a alguém…

Na adolescência sabemos quando a poderemos cobrar, sentimos a ansiedade do momento e prevemos como será a sensação de a realizar. Fazem-se planos de viagens; aprendem-se todos os componentes e termos; inicia-se uma procura entre revistas e sites de anúncios; convence-se os pais, os avós ou o primo distante a dar-nos ou a emprestar-nos; unem-se sonhos a emoções e transforma-se o livro em algo sagrado. E, eu sentia-me uma adolescente mesmo estranha, não tinha nenhum daqueles sintomas, nem nunca quis que ninguém me fizesse tal promessa. Não nem pensar, não me imaginava, era uma ideia inconcebível para mim.

Todavia, os meus pais obrigaram-me a sentir aquele momento mostrando que as vantagens venciam as desvantagens. Assumo, que foram meses em que me senti burra, em que achei aquilo um tormento, mas no final consegui tê-la. Lágrimas, suores e pequenas glórias para ter a sagrada carta de condução!

Voltávamos ao mês de junho, tinham passado 7 anos anos desde que tinha vivido aquela tortura, mas agora teria outra pela frente: o livro de código seria uma mala de viagem, os instrutores iriam-se alternando entre médicos e enfermeiros, o opel corsa ganharia a forma de uma máquina branca, mas o sentimento de rejeição esse manter-se-ia inalterável. As aulas seriam de 5 dias e aconteceriam, se não houvesse percalços, de 3 em 3 semanas.

Estava mesmo nervosa, tinha imensas questões e sentia que a primeira aula determinaria a forma como encararia as próximas. Cheguei ao quarto, a enfermeira explicou-me os sinais e as principais regras e eu entendi que a prioridade seria sempre dada ao meu corpo. De seguida, mostrou-me os três pedais e pediu-me para sentir o barulho do ponto de embraiagem com a punção do implantofix. Para terminar, ensinou-me o significado de cada luz e comecei a receber a medicação intravenosa.

Durante os 5 dias não cometi nenhuma contra-ordenação; aprendi como ter uma condução segura e sentia-me confiante para colocar a primeira e arrancar para a próxima aula.

Fiz a promessa, sem saber o que me esperaria, mas também sabia que o “se” estava dependente daqueles primeiros 5 dias: se os aguentasse suportaria o resto dos internamentos. Cumpro a promessa de 3 em 3 semanas e, caso algum dia me esqueça tenho a certeza absoluta que existirá alguém para a cobrar.

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O Blog Dia de Mudança relata o caminho de uma jovem de 25 anos desde o momento em que descobre que tem um Linfoma de Burkitt até à atualidade, onde demonstra como o corpo e a mente recuperam após meses de tratamentos.

One thought on “Não quero tirar a carta de condução!

  1. Nem penses faltar às aulas..
    Fantásticas as tuas analogias.
    Não é um Opel corsa…
    Vejo -te no estacionamentos a entrar no teu carrão, acenar um até amanhã. O ritual mantém-se só mudas-te de carro e eu…
    Eu aceno-te todos os dias!
    🌸

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